Quem vai ser a XP da XP?
A XP venceu uma guerra de distribuição. A próxima é de tecnologia, e ela já está sendo construída.
Essa semana terminei de ouvir o excelente último episódio do Aura. O Lucas Abreu entrevistou o Bruno Koba, founder da Astor. Bruno passou pelo Nubank no time que lançou o Ultravioleta, foi associate na Monashees cobrindo fintech early stage, fez Stanford GSB e completou a batch do Y Combinator em 2025. A Astor nasceu como “Cursor for retail investors” e hoje é outra coisa: um full financial advisor regulado pela SEC, com calls de base models, camada própria de data providers, agents orquestrados e um sistema de evaluation recursivo no estilo Constitutional AI da Anthropic.
Confira o episódio completo aqui, está imperdível:
Koba usa a Astor todo dia para rebalancear o próprio portfólio.
Foi nesse episódio que voltei para uma pergunta que me persegue desde o tempo em que trabalhei na XP. Aliás, vou contextualizar de outro jeito: Uma antiga anedota diz que o ChatGPT só existe porque o Google vacilou. O Google tinha os usuários, os papers, os dados. E ainda assim foi a OpenAI que estampou a manchete e levou a primeira mão.
Por aqui, a versão dessa anedota é outra: a XP só existe porque o Itaú vacilou.
Setubal subiu no palco de uma Expert - eu estava lá - e admitiu, em público, que quando o Itaú comprou parte da XP, ele mal sabia o que a XP fazia. A maior aquisição defensiva do mercado brasileiro foi assinada por um homem que estava aprendendo o negócio enquanto assinava os cheques. O Itaú é o Google da situação. Fez a aquisição certa. Investiu. Tentou fechar o gap.
A pergunta que fica é: quem vai ser a XP da XP?
A XP foi um fenômeno brasileiro. Não tem outra forma de descrever.
Em um país onde a Bolsa era inacessível e a distribuição de produtos financeiros morria na agência bancária, a XP ganhou as graças do povo como o caminho para a “desbancarização”.
Mas, ao longo do tempo, ela foi perdendo o medo de nascer a XP da XP.
Talvez graças a ela, hoje o Brasil tem mais de 60 milhões de investidores - 36% da população.
Mas a guerra que a XP venceu não foi de tecnologia. Foi de distribuição e narrativa. O genial da tese do Benchimol foi entender que, no mercado financeiro brasileiro, ter um app que abre em menos de 5 segundos já te colocava na frente. Aí ele empilhou em cima disso uma rede massiva de agentes autônomos espalhados pelo país, um discurso anti-banco bem temperado e uma plataforma que parecia infinitamente maior do que a do incumbente. Voilà.
App funcionar virou sinônimo de inovação tecnológica no mercado financeiro brasileiro.
A indústria inteira tratou tecnologia e finanças como duas áreas separadas durante esses anos. Tech era custo, era o pessoal lá embaixo no organograma, com sala diferente, dress code diferente e plano de carreira diferente. O produto era o AAI.
Hoje o Brasil tem mais de 27 mil agentes autônomos credenciados, atendendo dezenas de milhões de clientes. A infraestrutura tecnológica que sustenta essa operação, no fundo, é a mesma de 2010. Melhor desenhada. Mais bonita. Roda no celular. Mas a arquitetura de atendimento é gente. Gente conversando com gente, com uma tela no meio. O dia em que a régua de inovação do mercado deixar de ser o app e passar a ser o agente, o jogo vai virar.
E grande parte da indústria ainda não percebeu.
Tem uma cena que carrego comigo desde aquela época.
Era uma reunião entre uma gestora, onde eu estava, e um time de AAIs, falando sobre produtos de bolsa. Nossa conversa era simples: Os gestores tinham o melhor produto, a plataforma vendia outro.
Um dos AAIs parou. Pegou a calculadora. Fez a conta na nossa frente.
Nosso produto não fazia sentido econômico por conta da tabela de remuneração.
No mundo dos agentes, os Ads vão ganhar o espaço dessa tabela.
Mas o ponto é outro: aquele momento dependia inteiramente de um cérebro humano fazendo cálculo de comissão em tempo real, contra um cérebro humano explicando rentabilidade, na frente do cliente que estava lá esperando uma recomendação.
Quando estamos falando de sistemas regidos por humanos, parte do contexto está guardado dentro do cérebro de cada um. Na conversa de corredor. No recado escrito em um bilhete sobre a mesa. Na situação atípica do mês passado cuja compensação ficou pra esse mês.
O “sistema” escala assim. Com gente. Multiplicada por gente. Reportando para gente.
A XP da XP não vai ser uma empresa de investimentos. Vai ser uma empresa de tecnologia. Ou melhor, serão várias.
A grande revolução da IA é exatamente essa: permitir que empresas de um segmento disruptem empresas de outro. Por décadas, o mercado financeiro brasileiro foi protegido por uma barreira que se chamava “expertise regulatória + distribuição física + relacionamento humano”. Essas três barreiras estão diminuindo em velocidade diferente, mas estão. O que sobra é tecnologia. E aí é jogo de outra liga.
Um emaranhado de agentes operando dentro de microserviços, fatiando o processo de investimento em camadas. Cada um conversando com os outros. Cada um cobrando uma fração do que a indústria cobra hoje.
Não é sobre o cliente high net worth não vai precisar de um “private” cheio de glamour com vista para a Faria Lima. É sobre um cliente digital, que hoje é tratado por ninguém, poder ter um atendimento igual ao desse cara. Todo resto, vira “extra”.
A objeção mais forte contra essa tese é a óbvia: a XP tem a distribuição e a marca, além de mais de 3 milhões de clientes na base. Ela poderia comprar qualquer uma dessas “ameaças”.
O problema é que esse playbook já foi rodado. Pelo Itaú. Contra a própria XP.
Agora inverte: a XP comprando uma “Astor brasileira” em 2028. Vai integrar o quê? Vai colocar um financial advisor algorítmico para conversar com uma rede de AAIs? Vai jogar Constitutional AI em cima de uma operação que vive de gente vendendo produto para gente? A XP é boa demais no jogo dela. Mas e se o jogo dela estiver prestes a deixar de ser como é?
Tem uma fala do Koba no Aura que ficou martelando na minha cabeça: na era da AI, vende-se o trabalho, não o software. Output, não ferramenta. O cliente não quer um app que abre rápido. Quer o portfólio rebalanceado, a alocação otimizada, a declaração feita, o filho protegido. Tudo pronto.
E o segredo, segundo ele, é que bom gosto virou escasso. Num mundo onde IA produz código e conteúdo em escala ilimitada, taste é o que diferencia. Harvey, Legora, Cursor são, tecnicamente, wrappers. Mas criaram workflows tão bem desenhados que viraram unicórnios.
A XP da XP vai ser construída por gente que entende tecnologia como produto, não como suporte. Por founders que usam o próprio produto. Por times AI-pilled dispostos a automatizar o próprio trabalho. São as pessoas que enxergam na IA um potencializador de produtividade.
Hate to say, I told you so.
Toda empresa disruptiva deveria se fazer essa pergunta de tempos em tempos: quem vai ser a minha versão de mim?
Isso deveria ser quase que uma obsessão.
Algumas empresas, infelizmente, estão parando de pensar assim.
A conta sempre chega.
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